Uma comunidade unida para preservar a sua história

No passado dia 30 de maio de 2026 foi inaugurada a Oficina do Cuteleiro de Santa Catarina, um espaço dedicado à preservação, valorização e divulgação de uma das atividades que mais marcou a identidade desta freguesia do concelho das Caldas da Rainha.

A inauguração foi acompanhada pela abertura de uma exposição dedicada à história da cutelaria local, reunindo documentos históricos, fotografias, ferramentas, peças antigas, jornais, testemunhos e produtos representativos das empresas que ajudaram a construir a reputação de Santa Catarina e da Benedita como importantes centros da cutelaria portuguesa.

Mais do que uma exposição, este é um projeto de memória coletiva. Um espaço criado para homenagear os homens e mulheres que fizeram da cutelaria uma forma de vida e para garantir que o seu conhecimento continua acessível às gerações futuras.


Um projeto construído pela comunidade

A Oficina do Cuteleiro nasceu da dedicação de pessoas que viveram a cutelaria por dentro e de conterrâneos que compreenderam a importância de preservar um património que ajudou a moldar a história da freguesia.

Uma equipa de trabalho assumiu um papel central nesta recriação da oficina, mobilizando antigos cuteleiros, familiares, colecionadores e outros membros da comunidade para transformar uma ideia numa realidade.

Ao longo de meses, esta equipa recolheu fotografias, localizou documentos, identificou pessoas, reuniu peças históricas e reconstruiu memórias que ajudam hoje a contar a história da cutelaria de Santa Catarina.

A concretização deste espaço só foi possível graças ao envolvimento de muitos antigos profissionais do setor e das suas famílias, que contribuíram com conhecimento, testemunhos, objetos e inúmeras horas de trabalho voluntário.

Este é verdadeiramente um projeto da comunidade para a comunidade.



Uma oficina feita por quem conhece o ofício

Um dos aspetos mais especiais deste projeto é o facto de não se limitar a uma exposição de objetos antigos.

Os antigos cuteleiros envolvidos, entre eles António Gonzaga, José Pisco, João Pisco e João Agran, ajudaram a construir a barraca de madeira que recria o ambiente das antigas oficinas, recuperaram equipamentos, restauraram máquinas, montaram ferramentas e prepararam um espaço funcional onde é possível demonstrar várias etapas do trabalho tradicional da cutelaria.

Quem visita a Oficina do Cuteleiro encontra muito mais do que peças expostas. Encontra um local preparado para transmitir conhecimentos, preservar técnicas e manter viva uma profissão que marcou sucessivas gerações de habitantes da freguesia.

No próprio dia da inauguração foram produzidas algumas peças pelos artesãos presentes, permitindo aos visitantes observar o trabalho em ação. Algumas dessas peças foram oferecidas ao público, num gesto simbólico que reforçou a ligação entre o passado, o presente e o futuro da cutelaria local.


Uma terra moldada pelo ferro e pelo trabalho

Durante grande parte do século XX, Santa Catarina afirmou-se como um dos mais importantes polos da cutelaria portuguesa.

Em dezenas de oficinas familiares, muitas delas instaladas junto às próprias habitações, produziram-se navalhas, facas agrícolas, tesouras, utensílios domésticos e inúmeras ferramentas utilizadas no quotidiano agrícola, doméstico e profissional.

A exposição recorda que a freguesia chegou a contar com mais de 80 oficinas de cutelaria, existindo também referências históricas a cerca de 100 oficinas de navalheiros. Estas oficinas estavam distribuídas por vários lugares da freguesia e funcionavam, em muitos casos, ao ritmo da vida agrícola e familiar.

Homens, mulheres e jovens participavam nas diferentes fases de produção. O conhecimento transmitia-se de geração em geração e o trabalho nas oficinas fazia parte da organização económica e social da comunidade.

A cutelaria não era apenas uma profissão. Era uma forma de sustento, uma escola de saber-fazer e uma parte fundamental da identidade local.


Das oficinas familiares às fábricas de renome internacional

Com o passar do tempo, muitas oficinas tradicionais desapareceram ou deram lugar a unidades industriais de maior dimensão.

A produção artesanal, feita em pequenas oficinas familiares, evoluiu gradualmente para uma realidade industrial mais organizada, com maquinaria, processos produtivos modernos e capacidade de resposta a mercados nacionais e internacionais.

Mas a cutelaria não deixou de fazer parte da vida da freguesia. Pelo contrário, continua hoje a ser o sustento de muitas famílias de Santa Catarina e das localidades envolventes, agora sobretudo em ambiente industrial.

Das antigas 80 a 100 oficinas passou-se para fábricas com nome reconhecido, algumas com forte presença internacional, que continuam a produzir facas, navalhas, cutelos, tesouras e utensílios de corte de elevada qualidade.

Esta evolução mostra que a cutelaria de Santa Catarina não pertence apenas ao passado. Continua a ter presença económica, social e produtiva no presente.



Histórias, documentos e memórias preservadas

Ao longo do percurso expositivo, os visitantes encontram fotografias de antigos artesãos, documentos comerciais, ferramentas, componentes de navalhas, exemplares históricos e diversos testemunhos da atividade cuteleira.

Entre os destaques encontram-se peças que ajudam a compreender a construção tradicional das navalhas, mostrando os diferentes componentes que as constituem e o elevado nível de conhecimento técnico necessário para o seu fabrico.

A exposição reúne também documentos históricos, catálogos, registos empresariais, fotografias, notícias antigas e outros testemunhos que permitem acompanhar a evolução da cutelaria na freguesia ao longo de várias gerações.

Cada fotografia, cada ferramenta e cada documento ajudam a contar a história das pessoas que dedicaram a sua vida a este ofício.


O melhor da cutelaria produzida na região

Além da vertente histórica, a exposição permite também conhecer a excelência da produção atual.

Diversas empresas da região associaram-se à iniciativa, apresentando algumas das peças que melhor representam a qualidade e o conhecimento técnico que continuam a ser produzidos em Santa Catarina e na Benedita.

Entre as empresas representadas encontram-se nomes incontornáveis da cutelaria portuguesa, como a ICEL, IVO, NICUL, JERO, Curel, SICO, CIOL, Socutel e também o Lombo do Ferreiro.

Cada empresa trouxe exemplares representativos da sua produção, permitindo aos visitantes conhecer diferentes especialidades, técnicas e estilos de fabrico que continuam a afirmar a região como uma referência nacional e internacional no setor.

Esta presença estabelece uma ponte clara entre o passado e o presente: das antigas oficinas de navalheiros às fábricas atuais, a cutelaria continua a ser uma marca distintiva da região.



Um património que merece ser valorizado

Num tempo em que muitas profissões tradicionais desaparecem e parte significativa do património industrial português corre o risco de ser esquecida, projetos como a Oficina do Cuteleiro assumem uma importância especial.

Mais do que preservar objetos, preservam conhecimentos, histórias de vida e a memória coletiva de uma comunidade.

A todos aqueles que contribuíram para a criação deste espaço, para a recolha de peças, para a recuperação dos equipamentos, para a montagem da exposição e para a preservação desta memória coletiva, fica uma palavra de reconhecimento.

O empenho demonstrado por antigos cuteleiros, pelas suas famílias, pelas empresas da região e por toda a comunidade permitiu transformar uma ideia num projeto que honra a história de Santa Catarina e valoriza um património que pertence a todos.

A Oficina do Cuteleiro e a exposição agora inaugurada não celebram apenas ferramentas, facas ou navalhas. Celebram as pessoas que, geração após geração, transformaram ferro em trabalho, trabalho em sustento e sustento em identidade.

A exposição pode ser visitada até ao dia 7 de junho. Após essa data, a Oficina do Cuteleiro continuará a receber visitantes mediante marcação prévia, permitindo que este espaço de memória, aprendizagem e valorização da cutelaria local permaneça acessível a todos os que desejem conhecer uma das mais importantes tradições artesanais e industriais da nossa região.